25 de outubro de 2021

A história principal desta newsletter é tão boa que já teve direito a um documentário, cuja visualização recomendo assim que chegarem à ultima linha deste e-mail. Depois do fiasco de 2019, a WeWork conseguiu, na semana passada, entrar na Bolsa de Nova Iorque, o que é uma ótima desculpa para relembrar o percurso da empresa e o que esperar do futuro pós-IPO  na "Era do Trabalho Flexível".

Obrigado por nos acompanharem,

Miguel Magalhães

Long Stories Short 

 WeWork. Longe de ser um final feliz 

14 de agosto de 2019. Uma data que era suposto marcar o dia D para a startup WeWork, que na última década se tinha tornado a estrela do setor imobiliário americano. Avaliada em 47 mil milhões de dólares na sua mais recente ronda de investimento, com a submissão do S-1, o documento que inicia o processo de entrada de uma organização na bolsa americana, o futuro parecia risonho para a empresa e para o seu CEO e co-fundador, Adam Neumann. No entanto, quando esse documento foi tornado público, os analistas financeiros de Wall Street, bem como os principais media do setor, rapidamente se aperceberam que o quadro que a empresa tinha pintado durante anos não era uma representação fidedigna do estado do seu negócio. Prejuízos gigantes, investimentos duvidosos e uma liderança suspeita por parte de Adam Neumann levaram a que a WeWork abortasse o “Plano Wall Street” e contribuíram para que, no final de 2019, a empresa já tivesse perdido quase 90% do seu valor.Como é que tudo isto aconteceu?Em 2010, quando foi fundada em Nova Iorque, a WeWork apresentou um modelo de negócio, no mínimo, ambicioso: dada a crise económica provocada pelo crash de 2008 e a diminuição do valor médio das rendas, a empresa arrendou uma série de edifícios na cidade e transformou-os em espaços de co-work onde uma série de startups e empresas podiam mais facilmente instalar as suas equipas e beneficiar de um ambiente descontraído para inovarem e fazerem parcerias com outros “vizinhos”.A estratégia exigia, por um lado, um forte investimento que assegurasse todos os custos fixos associados à manutenção de uma rede de espaços, primeiro nos EUA, mas também para outros mercados onde a WeWork se podia expandir. Por outro, beneficiava de um boom no setor empresarial onde diariamente apareciam uma série de startups tecnológicas a revolucionar as mais diferentes áreas, o que suscitava o interesse de potenciais investidores em negócios que procurassem tirar proveito dessa tendência. Ao leme da empresa estava Neumann, de origem israelita, cuja personalidade e postura também contribuíram para o protagonismo da empresa. Tinha cabelos longos negros, ia descalço para a maior parte dos eventos onde participava, não comia carne e era um adepto do consumo de marijuana e tequila. A somar a isto tinha um forte carisma e presença, que o ajudavam a vender as suas ideias aos investidores dos quais a WeWork dependia.Foi com base nestas premissas que nos nove anos seguintes a empresa conseguiu um montante de financiamento superior a 20 mil milhões de dólares, que utilizou para se expandir para nos EUA e internacionalmente e para alargar as suas fontes de receita, passando a oferecer também serviços de alojamento, infraestrutura para serviços de educação e programas de incubação e aceleração de empresas.Neste percurso, a WeWork e o seu CEO não deixaram de ser alvos de críticas e de polémicas. 

  • Em Wall Street, diversos analistas começaram a questionar a capacidade de a empresa gerar lucros com uma estrutura de custos tão densa e começaram a suspeitar da necessidade da mesma de levantar sucessivas rondas de investimento.

  • Do lado reputacional, começaram a surgir alguns casos de discriminação na forma como mulheres eram tratadas, que revelaram o ambiente tóxico que era vivido na empresa.

  • Do lado institucional, um dos principais investidores da empresa passou a ser o grupo japonês Softbank, cujo fundo para unicórnios era apoiado pelo governo da Arábia Saudita, algo que originou alguns “zum-zuns políticos” nos EUA.

  • Do lado de Neumann, foram surgindo histórias que demonstravam o nepotismo que foi progressivamente instaurando na empresa, ao selecionar pessoas próximas de si para cargos de relevo e ao arrendar edifícios que tinha adquirido à própria empresa que liderava.

Regressando a 14 de agosto de 2019O S-1 confirmou algo que muitos já antecipavam: a WeWork estava a perder e a “queimar” muito dinheiro, mais precisamente, 2 mil milhões de dólares por ano. Mas revelava muito mais. No documento, a empresa sobrestimava (e muito) o seu potencial de crescimento, apresentava uma série de ideias bizarras sobre como se ia tornar lucrativa e demonstrava que, antes da própria IPO, Neumann já tinha liquidado parte da sua participação na empresa (~700 milhões de dólares), o que nunca é um bom sinal para quem quer convencer os mercados a investir no seu negócio. Nas semanas seguintes, tudo mudou para a empresa. Depois da entrada em bolsa ser colocada em stand by, o crescente escrutínio levou a que os acionistas da WeWork votassem no afastamento de Neumann como CEO, que recebeu 1,7 mil milhões de dólares para cortar relações com a empresa que tinha criado (continuando dono de 11% da mesma). O principal acionista da WeWork passou a ser o Softbank que, depois de investir 13 mil milhões de dólares, tinha de arranjar um novo líder para a empresa que estava agora avaliada em pouco mais de “oito”. A WeWork desinvestiu numa série de empresas que tinha adquirido, abortou a expansão para várias localizações, fechou outras e despediu cerca de 2.500 pessoas. Tudo coisas que eram difíceis de imaginar poucos meses antes. E a pandemia ainda nem tinha chegado.Vamos saltar a parte da pandemiaResumindo o impacto que a COVID-19 teve num negócio dependente da presença de pessoas em espaços físicos: foi muito mau. A WeWork foi obrigada a continuar o processo de desaceleração provocado pelo fiasco de 2019 (menos espaços, menos empregados, menos custos) e começar a preparar-se para a era do trabalho flexível, que até pode ser benéfica para a empresa. Com cada vez mais empresas a procurar dar aos seus colaboradores um regime de trabalho híbrido ou remoto, a WeWork criou um cartão geral de acesso a todos os seus espaços que já é subscrito por 32 mil utilizadores e que gerou 100 milhões de dólares em receitas no último ano.De acordo com o seu novo CEO, Sandeep Mathrani, em 2022, a empresa já poderá ser lucrativa e parte disso ajuda a explicar o porquê de, na semana passada, a WeWork ter finalmente passado a ser cotada na Bolsa de Nova Iorque com uma avaliação de 8 mil milhões de dólares (já valia em "10,5" esta segunda-feira). Está longe de ser um final feliz e a empresa ainda tem uma série de obstáculos a ultrapassar, mas é mais uma etapa na história desta organização, que tem sido uma autêntica montanha russa.

Quiz TimeUma das polémicas de Neumann foi ter feito trademark do termo "We" e obrigar a própria WeWork a pagar-lhe pelos direitos de utilização.Quanto é que cobrou?Descubra a resposta no fim da newsletter.

* * *

The Next Big Idea apresenta...

 NEXT Studio  

Cada história de inovação é única e um verdadeiro bilhete de identidade de cada empresa.No nosso mundo cada vez mais digital, o vídeo é uma ferramenta-chave para nos apresentamos uns aos outros e para ficarmos a conhecer parceiros, clientes, investidores ou futuros colaboradores.No The Next Big Idea, ao longo dos últimos dez anos, já contámos a história de mais de 600 empresas e projetos inovadores

É essa experiência que trouxemos para o NEXT Studio, um espaço para contar a história de inovação de cada empresa desde a criação do guião, às filmagens, edição e planeamento da distribuição do conteúdo nas várias plataformas.

* * *

Vi algures na Internet  💻

Conteúdos que valem a pena espreitar:

Facebook. Depois de várias polémicas, o Facebook anunciou a sua intenção de fazer um rebrand com direito a mudança de nome. De acordo com o The Verge, a empresa de Mark Zuckerberg quer agora focar-se no metaverse.Ecommerce. Austin Li Jiaqui, o chinês mais conhecido por “Rei dos Batons”, vendeu cerca de 1.7 mil milhões de dólares, apenas numa livestream de 12 horas. Por outras palavras, é um valor superior às receitas do Twitter no último trimestre.Clima. A produção de combustíveis fósseis deve disparar na próxima década. De acordo com a ONU, os planos de cada executivo para eliminar este tipo de combustível até 2030 não são compatíveis com a manutenção da temperatura da terra a níveis seguros. O relatório das Nações Unidas aponta para uma perfuração ou mineração de mais de o dobro dos níveis exigidos para cumprir o limite de 1,5ºC.Saúde. “Se queres ver o teu corpo, abre o teu porco”. A expressão portuguesa (e, naturalmente, a evidência científica) há muito que ditava as parecenças entre o nosso corpo e o dos suínos. Há poucos dias, o rim de um porco foi transplantado para um humano com sucesso, pela primeira vez. Apenas rumores. Uma potencial compra da rede social Pinterest por parte do Paypal, no valor de 45 mil milhões de dólares, seria o maior negócio do ano. Mas a Paypal informou que, “para já”, não vai avançar com a aquisição.

* * *

 Next Academy  Aprender inovação com quem inova  

Lançamos em novembro a primeira iniciativa do The Next Big Idea na área da formação com o lançamento da Next Academy em parceria com a Leiria Business School e a Startup Leiria.Um projeto desenhado para partilhar conhecimento de empreendedores e gestores de inovação com casos práticos e com a coordenação pedagógica de Susana Fernandes, a diretora da Leira Business School.O programa vai contar com: Inês Vieira - Senior Talent Acquisition Specialist da La RedouteDiogo Alves de Oliveira - CEO da Landing Jobs João Peixoto - Engeneering Leadership da Anchorage Fred Antunes - CEO da RealFevr Joana Mendonca - Presidente da Agência Nacional de Inovação  Paulo Mateus Pinto - CEO da La Redoute Miguel Alves Ribeiro - CEO da SheerME,Rute Sousa Vasco - Jornalista e fundadora do The Next Big Idea, Mariana Barbosa - Head of PR & Communication da Coverflex  Vanessa Carreiro Amaral - Consultora e Formadora de Redes Sociais.Saiba mais sobre o programa aqui.

    * * *

    Ronda de Investimento

     Investir é uma maratona, não um sprint  

    Ninguém fica milionário, nem ninguém se torna num bom investidor de um dia para o outro. É esta a premissa da Air Trading, que organiza regularmente webinars, formações presenciais e sessões de mentoria e com quem o The Next Big Idea fez uma parceria para o desenvolvimento do primeiro curso online de negociação em Bolsa.

    • O curso “Negociar em Bolsa” contém 10 módulos de formação teórica e prática conjugados com três meses de acompanhamento individual personalizado. 

    • Não há powerpoints nem gráficos sem contexto. Todo o conteúdo foi produzido em vídeo, com guião desenvolvido para que o processo de aprendizagem seja mais simples, interessante e ilustrado com exemplos práticos.

    * Este conteúdo contém links afiliados. Saiba como funcionam e como ajudam a apoiar o trabalho desenvolvido por esta newsletter aqui.

      * * *

      Resposta:

      5,9 milhões de dólares.

      * * *

      Ficha TécnicaPRODUÇÃO MADREMEDIANewsletter escrita por:Miguel Magalhães e Catarina MarquesEdição:Rute Sousa Vasco, Miguel MagalhãesRevisão:Catarina MarquesIlustrações:Rodrigo Mendes, Diogo Gomes

      Copyright © , Todos os direitos reservados.O nosso endereço é:Quer deixar de receber estes emails?Pode clicar aqui. Mas não faça isso: isto está giro.