
23 de outubro de 2023
“Vou demitir-me do cargo de CEO da Web Summit com efeitos imediatos". Foi assim que Paddy Cosgrave, rosto da Web Summit para os portugueses, anunciou no sábado que ia afastar-se da liderança da conferência que trouxe para Lisboa em 2016, na sequência dos comentários que fez sobre o conflito entre o Hamas e Israel. O que leva à questão: e agora?Obrigado por nos lerem,Abílio dos Reis
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Long Stories Short

A demissão de Paddy
É uma frase que não espanta mediante os acontecimentos dos últimos dias (já lá iremos), mas que ainda assim não deixa de ser estranho escrever após vários anos de habituação: Paddy Cosgrave já não é o diretor executivo da Web Summit.O irlandês deixou a liderança e o cargo de CEO durante este fim de semana, no sábado, depois de várias Big Tech, como a Alphabet, Amazon e Meta, terem comunicado que iam renunciar à conferência, a ter lugar em Lisboa entre 13 e 16 de novembro, na sequência da sua observação sobre o conflito entre Israel e o Hamas em Gaza."Infelizmente, os meus comentários pessoais tornaram-se numa distração do evento, da nossa equipa, dos nossos patrocinadores, das nossas startups e das pessoas que compareceram”, explicou Cosgrave num comunicado enviado a vários meios internacionais como a Bloomberg.O que se passou?Paddy era o rosto da Web Summit, empresa que liderava e co-fundou em 2009 na Irlanda com David Kelly e Daire Hickey (não se fala tanto nisso, mas a Web Summit não organiza só eventos; é igualmente uma empresa de software, pois detém o Summit Engine, um sistema que engloba as plataformas utilizadas para fazer, por exemplo, a sua app ou construir a sua base de dados).A polémica em torno do evento começou depois de Cosgrave ter criticado na rede social X, no dia 13 de outubro, o apoio ocidental à resposta militar de Israel ao ataque do Hamas. “Os crimes de guerra são crimes de guerra mesmo quando cometidos por aliados, e devem ser denunciados pelo que são", destacou o agora ex-CEO, que se referia à decisão inicial de Israel em cortar a eletricidade e bloquear a entrada de alimentos, combustível, água e outros abastecimentos, dando a mais de um milhão de palestinianos 24 horas para abandonarem as suas casas e evacuarem para o sul da Faixa de Gaza.A repercussão das palavras de Paddy fez-se logo sentir. Na Internet através das respostas de outros utilizadores da X (como o empreendedor David Marcus, ex-Facebook, que o acusou de apoiar terroristas), em Portugal pela voz do embaixador israelita Dor Shapira — que primeiro acusou o irlandês de ser “incapaz de deixar de lado as suas opiniões políticas extremistas e denunciar as atividades terroristas do Hamas contra pessoas inocentes”, depois anunciando que Israel não iria participar na Web Summit devido às "declarações ultrajantes" de Paddy.Dois dias depois, Cosgrave alongou na X a sua publicação inicial, escrevendo que considera que aquilo que o “Hamas fez é ultrajante e repugnante”, mas que Israel “não pode estar acima da lei internacional” — e que “não ia ceder”.#cancelwebsummitNa terça-feira, dia 17, com o coro de críticas a crescer e a virem de vários quadrantes (de investidores a figuras importantes do mundo tecnológico), Paddy publicou uma declaração mais extensa no blogue da Web Summit a clarificar a sua posição. O título era bem elucidativo: “Pedido de desculpas”."Condeno sem reservas o ataque maléfico, repugnante e monstruoso do Hamas a 7 de outubro. Apelo igualmente à libertação incondicional de todos os reféns”, escreveu, assinalando também apoiar “inequivocamente o direito de Israel a existir e a defender-se”. Todavia, acredita que, ao defender-se, “Israel deve respeitar o direito internacional e as Convenções de Genebra - ou seja, não cometer crimes de guerra”, pode ainda ler-se.O pedido de desculpas estava dado e a sua visão esclarecida. Mas não foi suficiente. Quando Shapira informou que Israel não ia participar na conferência, rapidamente apareceu a hashtag #cancelwebsummit e surgiram notícias de que nomes de peso como a Meta, Google, Amazon, Intel, Stripe ou a Siemens iam boicotar o evento. A par, houve também um grupo de investidores israelitas que emitiu uma declaração conjunta apelando que outros seguissem o caminho das Big Tech.Ainda não se sabe ao certo o impacto desta renúncia conjunta, mas já é sabido que alguns dos que fizeram boicote já reverteram a decisão após o comunicado de sábado.E agora?Segundo a organização, a Web Summit vai continuar tal como o previsto e um novo CEO será apontado em breve. Portanto, entre os dias 13 e 16 de novembro, a cimeira tecnológica estará de volta à Altice Arena e aos pavilhões da FIL, pronta a receber dezenas de milhares de participantes como tem feito desde 2016, altura em que entre críticas e alegadas falta de Wi-Fi, Paddy trocou Dublin por Lisboa.Nesse ano, a Web Summit chegou a Portugal apenas para uma estadia trianual. Mas como a relação entre Web Summit, governo e autarquia se revelou harmoniosa, estendeu-se a ligação até 2028 (com algumas turras pelo meio devido ao tópico Expansão FIL). Em 2022, foram mais de 70 mil os que visitaram a capital portuguesa para assistir à conferência. Em 2023, veremos quantos mil serão. Quanto ao futuro da Web Summit, há toda a questão do legado. O/a próximo/a CEO não vai só herdar o evento que ficou conhecido como “Davos para os Geeks”. O legado de Paddy, para o bem e para o mal, garante que longe vão os tempos em que a conferência se fazia para 400 pessoas. Saltaram-se oceanos e conquistaram-se outros continentes. Estreou-se no Rio de Janeiro o ano passado, em 2024 vai estar no Qatar e há que contar ainda com as “conferências-irmãs” Rise (Hong Kong) e Collision (Toronto). Não é fácil continuar a crescer e a expandir ano após ano.No entanto, é certo que alguém novo vai ter de assumir a liderança. Cosgrave tentou ser a “Suíça” ao longo dos anos e em Portugal sobreviveu a um jantar no panteão, a camisolas de lã de quase 800 euros e convites feitos a Marine Le Pen e ao site Grayzone. Mas algumas das empresas e sponsors que ajudaram a fazer crescer o seu evento consideraram que os seus comentários sobre o conflito do Hamas e o Israel cruzaram a linha do razoável. Ainda pediu desculpas, mas não chegou. Agora, resta saber quem será o senhor ou senhora que se segue. E esperar para ver se muda ou continua a visão do irlandês.
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Ficha TécnicaPRODUÇÃO MADREMEDIANewsletter escrita por: Miguel Magalhães, Abilio dos ReisEdição:Rute Sousa Vasco, Miguel MagalhãesRevisão:Abílio dos ReisIlustrações:Rodrigo Mendes, Diogo Gomes








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