11 de setembro de 2023

A farmacêutica Novo Nordisk, conhecida pelos seus medicamentos para diabetes e perda de peso, destronou no início do mês a LVMH como a empresa cotada mais valiosa da Europa. Mas os feitos não se limitam à usurpação dos títulos nos jornais e do trono das avaliações em bolsa. Em ano de centenário, já superou a produção total da economia dinamarquesa e está a redefinir o seu país. Obrigado por nos lerem,Abílio dos Reis

Long Stories Short 

  Revolucionar a perda de peso e a economia 

A dinamarquesa Novo Nordisk continua a tendência de crescimento dos últimos anos e na última semana tornou-se a empresa mais valiosa da Europa, destronando a LVMH (que detém 75 marcas de luxo, entre elas a Louis Vuitton e a Dior). O feito aconteceu depois da entrada no Reino Unido do seu medicamento mais popular para a perda de peso, o Wegovy, que nos últimos tempos tem sido notícia por fazer furor entre as estrelas de Hollywood (e não só, que Elon Musk já afirmou também que o tomou).Se no início do mês a farmacêutica tinha superado a LVMH por breves instantes durante a sessão, com a entrada do badalado medicamento em território britânico no dia 4 de setembro, a Novo Nordisk conseguiu mesmo destronar o império de Bernard Arnault. Segundo o Financial Times, a dinamarquesa fechou a sessão a valer 398 mil milhões de euros, superando os 383 mil milhões de euros da LVMH.A Novo Nordisk é maior referência no mercado de medicamentos para a diabetes e para a perda de peso. Segundo as previsões dos analistas, em 2023, deve chegar aos 130 ou 140 mil milhões de dólares em vendas. Quanto à pergunta "como é que conseguiu ultrapassar a Louis Vuitton?", a resposta chega por duas vias: ao recuo do luxo no mercado chinês e à sua promessa de revolucionar a perda de peso.100 anos: da insulina à obesidadeA molécula da insulina foi descoberta por uma equipa de cientistas no Canadá, em 1921, mas a sua produção só começou dois anos mais tarde. A pedido da mulher (médica, companheira de investigação e diabética), o Nobel August Krog viajou até à “Terra do Maple Syrup” de modo a obter a autorização necessária para iniciar a técnica de extração e purificação da molécula na Dinamarca. Aceite o pedido, os primeiros doentes foram então tratados em 1923, dando início a um século de inovação nos tratamentos à base de proteínas. Hoje, a Novo Nordisk (que nasceu da fusão de duas empresas rivais, a Nordisk Insulinlaboratorium e Novo Terapeutisk Laboratorium) é responsável pela produção de cerca de metade da insulina a nível mundial e desenvolve medicação para diabetes, obesidade, hemofilia e hormonas de crescimento.Todavia, nos últimos tempos, a empresa ganhou fama à escala planetária graças à proliferação nas redes sociais dos efeitos de dois dos seus medicamentos: a Ozempic (semaglutido) e o Victoza (liraglutido), duas substâncias injetáveis para controlar os diabetes. No entanto, estas canetas estão a ser muito requisitadas por outras questões, nomeadamente o antidiabético Ozempic, que também revela eficácia no tratamento à obesidade (via controlo de apetite e perda de peso). A popularidade é tal que a Novo Nordisk não tem capacidade para satisfazer a procura e há muitas farmácias na Europa e nos EUA que não conseguem meter mão no medicamento.

  • O Ozempic já é comercializado em Portugal e destina-se a doentes com diabetes tipo 2. Porém, como salientou uma especialista à CNN Portugal, também demonstrou eficácia na redução do peso, pressão arterial ou risco cardiovascular. “O mesmo fármaco, numa dose [1mg], tem indicação para a diabetes; numa dose superior [2,4mg], tem indicação para a obesidade", explicou.

Mas esta é apenas parte da explicação do sucesso, que ainda não contempla “a estrela” que levou à valorização e consequente ascensão a #1 da Europa: o Wegovy, que promete revolucionar a perda de peso.Em agosto, a Novo Nordisk publicou um estudo sobre os resultados deste medicamento, que além de prometer a redução de “5% a 20% do peso" em pessoas com obesidade, também reduziu em 20% o risco de acontecimentos cardíacos graves, incluindo ataques cardíacos. Estes dados fizeram disparar o valor das ações da empresa, que mais do que quadruplicaram desde 2018 (e 41% só este ano).

  • A diferença do Wegovy para o Ozempic: o primeiro é exclusivamente para efeitos de perda de peso, ou seja, contempla fatores de risco como a obesidade, colesterol ou hipertensão. O segundo faz perder peso, mas são resultados que excedem o seu propósito.

  • O Wegovy já foi aprovado pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA), mas só está disponível no Reino Unido, Noruega, Dinamarca, Alemanha e EUA.

Uma só empresa, mas metade de um paísQuando se fala na dimensão desta gigante farmacêutica, é preciso dar algum contexto, porque às vezes os números são tão grandes que parecem tirados de uma série de ficção. De acordo com o Banco Mundial, ao alcançar uma capitalização de mercado de 386 mil milhões de euros em 2023, a Novo Nordisk superou mesmo a produção total da economia dinamarquesa. O seu peso é tão grande no país que, segundo o Financial Times, sem a farmacêutica, a Dinamarca estava hoje em recessão.No final de agosto, o Expresso explorou o tema (interrogando se a Dinamarca era o primeiro “diabetoestado” do mundo) e detalhou como o Ozempic fez disparar o excedente comercial dinamarquês (calculado nos 12,8% do PIB em 2022, algo só ao nível dos “petroestados” e paraísos fiscais) e se tornou no “primeiro medicamento do mundo que além de diminuir a glicose também diminui taxas de juro”.Outro ponto interessante abordado pelo jornal é se estamos perante um novo “caso Nokia” para os lados da Escandinávia. Antes de existirem telemóveis inteligentes, na década de 90 e nos meados dos anos 2000, a empresa de telecomunicações representava 4% do PIB finlandês e 70% das exportações do país. Só que quando apareceu o iPhone e outros semelhantes, a empresa não acompanhou a evolução e a empresa atirou a economia finlandesa para a recessão (colapsando as exportações ao mesmo tempo). No entanto, na opinião de um especialista ouvido pelo seminário, no caso da Novo Nordisk e da Dinamarca, o futuro deverá ser outro porque a indústria é diferente e a expectativa é a de um crescimento exponencial nas próximas décadas devido à demografia nas economias avançadas. Em suma, não dá para dizer com certeza se a Dinamarca vai realmente ser o primeiro “diabetoestado” global. Mas caso se confirme a eficácia do medicamento Wegovy no combate à obesidade e a questão dos problemas de produção para a demanda ficar resolvida, não há muitos motivos para duvidar que, pelo menos, vai continuar a redefinir a economia do país e a ser a maior contribuinte do país em matéria de impostos.

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The Next Big Idea apresenta...

 Masterclass com Marcelo Lebre 

A Remote de Marcelo Lebre é a empresa fundada por um português que mais rapidamente atingiu o estatuto de unicórnio. O rótulo diz pouco ao empreendedor, para quem o “conteúdo é mais importante que o título”. Focado em “montar um bom negócio”, nesta masterclass fala sobre encontrar product-market-fit, isto é, sobre ter o produto certo para o mercado certo. O sweet spot que a Remote levou sete anos a encontrar.

  • O projeto “Únicos” propõe-se dar resposta à pergunta sobre o que torna uma empresa única e de que forma essa aprendizagem pode ajudar outras. Fizemo-lo num projeto em parceria com a Google e a Shilling.

  • A masterclass com Marcelo Lebre está disponível aqui.

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Vi algures na Internet  💻

Portugal, o cryto heaven. A qualidade de vida, as leis fiscais e um enorme afluxo de expatriados fizeram de Lisboa uma das capitais mundiais do cripto. (CNBC)Frozen Gordan Ramsay. Da comida com estrelas Michelin para as arcas frigoríficas do Walmart. O reconhecido chef britânico lançou-se na indústria da comida congelada (que gerou 72 mil milhões de dólares o ano passado). (FoodDive)X Corp. O antigo Twitter fez saber que vai processar o Estado da Califórnia devido a uma nova lei que obriga as empresas a revelar as suas práticas na moderação de conteúdos. (The Verge)Morgan Stanley chatbot. Com a ajuda da OpenAI, os gestores de património do banco vão contar com um "assistente virtual". (Jornal de Negócios)WhatsApp multiplataforma? Uma nova versão beta contém uma pista sobre a forma como a Meta se está a preparar para cumprir a Lei dos Mercados Digitais da UE. (WABetaInfo)Tom Brady. A ex-estrela da NFL surpreendeu ao anunciar que vai ser o consultor estratégico a longo prazo... da Delta Air Lines. (AP News)UK AI Summit. O governo britânico convidou a China para a sua cimeira histórica sobre inteligência artificial, mas o convite só foi extensivo a seis dos 27 Estados-Membros da UE. (Sifted)Meta. A empresa de Zuckerberg define o GPT-4 como a fasquia mínima para o seu próximo modelo de IA — e já encomendou os famosos Nvidia H100 para não depender da nuvem da Microsoft. (The Verge)Disney. A Casa do Rato Mickey vai lançar uma nova coleção de 100 filmes de animação em Blu-ray — por 1.500 dólares. (The Wrap)Microsoft. A empresa assinou um chorudo acordo com a startup Heirloom Carbon (de 200 milhões de dólares) para ajudar a gigante tecnológica a neutralizar as suas emissões de carbono. (GeekWire)ChatGPT. Este verão, registou-se uma grande queda no tempo que os utilizadores passaram no chatbot (provavelmente devido ao fim das aulas e ao aumento da concorrência). (Axios)Roblox. Com a chegada à PlayStation 4 e 5 no próximo mês, há poucos sítios onde esta aplicação com 65 milhões de utilizadores ativos mensais não está (Axios). E, no futuro, a plataforma pode até virar dating app. (The Verge)Desinformação e IA. Num novo relatório, a Microsoft afirma ter descoberto provas de que atores ligados à China estão a utilizar imagens geradas por IA nas suas campanhas nas redes sociais para as tornar mais credíveis.

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Ficha TécnicaPRODUÇÃO MADREMEDIANewsletter escrita por: Miguel Magalhães, Abilio dos ReisEdição:Rute Sousa Vasco, Miguel MagalhãesRevisão:Abílio dos ReisIlustrações:Rodrigo Mendes, Diogo Gomes

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