28 de agosto de 2023

A Farfetch estreou-se na bolsa de Nova Iorque em 2018, numa debuta que dificilmente poderia ter sido melhor: entrou em cena quase duas vezes mais cara do que o setor, tendo o preço por ação chegado aos 30,60 dólares. Em 2023, contudo, a vida em Wall Street não é a mais animadora, tendo o relatório de contas do segundo trimestre atirado a empresa para a cotação mais baixa desde a sua entrada em bolsa.Obrigado por nos lerem,Abílio dos Reis

Long Stories Short 

 Um tombo dos grandes 

No dia de 17 agosto, a plataforma de venda de produtos de luxo liderada pelo português José Neves reportou as contas do segundo trimestre e ficou a saber-se que a retalhista passou dos lucros aos prejuízos — e Wall Street reagiu logo no dia a seguir, com as ações a desvalorizar para níveis históricos.E nem mesmo o recorde de utilizadores ativos (4.1 milhões, mais 7%) e um crescimento do valor bruto das mercadorias de 1,2% (o chamado Gross Merchandise Value - GMV, métrica importante para o e-commerce porque traduz o valor monetário das transações num determinado período de tempo) impediu que o valor das ações batesse no fundo, pois até mesmo as métricas positivas ficaram aquém do esperado.

  • Um prejuízo de 281,3 milhões de dólares (enquanto no ano passado tinha registado um lucro de 62 milhões de euros);

  • Registou 572 milhões de dólares de receitas (menos 1,28% do que o ano passado), valor aquém do esperado (analistas esperavam 650 milhões de dólares);

  • O EBITDA (o resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) agravou, sendo agora de 30,5 milhões de dólares negativos (contra os 24,2 milhões milhões no segundo trimestre do ano passado).

Estes resultados da Farfetch desapontaram tanto o mercado como os analistas, tendo as ações da retalhista afundado 40% no dia a seguir à divulgação do relatório. Segundo o Jornal de Negócios, os títulos chegaram a desvalorizar 43,07% para 2,71 dólares, um novo mínimo histórico desde a sua entrada em bolsa em 2018. A ação fecharia nos 2,61 dólares.Desvalorização em bolsaHá rumores de que um “sentimento negativo” tem vindo adensar-se em Wall Street em torno da retalhista, de acordo com o jornal Público. Segundo o diário, há “algumas franjas do mercado bolsista” que não estão “a aderir à narrativa da administração” e nem mesmo a reestruturação para reduzir a base de custos (os fixos e com pessoal) ou o acordo “histórico” do setor do luxo com a Richemont (dona da Cartier, entre outras) para ficar com uma participação da Yoox Net-A-Porter (TNAP), parecem mudar os ares de desconfiança de alguns analistas.

O jornal fez inclusive uma análise de alguns dados contabilísticos dos últimos anos, que podem ajudar explicar o sentimento dos mais céticos relativamente à rentabilidade da empresa (que a Farfetch diz ser algo "não-negociável" — daí ter deixado cair o negócio da beleza apenas um ano depois de ter comprado a cosmética Violet Grey).

  • Lucros. A Farfetch fará cinco anos de bolsa em setembro, sendo que apresentou lucros em dois (2020, 2021). No entanto, os resultados foram suportados por “fatores extraordinários” (pandemia e confinamento) e por “fatores contabilísticos”, como as reavaliações do justo valor de instrumentos financeiros, que o jornal indica serem ações “usadas como pagamento e como colateral”.

  • EBITDA (o resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações). Em 14 trimestres desde 2020, o EBITDA ajustado apenas foi positivo em quatro ocasiões. Segundo o Público, mesmo que a Farfetch não tivesse que pagar impostos nem financiamento, e os bens em uso não perdessem valor, ainda assim, “a empresa teria sido globalmente deficitária”.

  • Preço por ação. Em 2018, quando se estreou no mercado bolsista de Nova Iorque em setembro, a ação ao preço unitário era de 28,45 dólares. Quase cinco anos depois, no dia 24 de agosto de 2023, na abertura, cada uma valia apenas 2,87 dólares. A título de comparação, há um ano, no fecho do dia 24 de agosto de 2022, a ação foi negociada a 9,5 dólares.

No entanto, convém deixar a ressalva que há uma troca de CFO a caminho e as coisas podem mudar — tanto nos números como na perspetiva dos analistas mais céticos. Elliot Jordan ocupou o cargo nos últimos 8 anos, mas a partir do dia 1 de setembro vai ser substituído por Tim Stone, que com 20 anos de Amazon (chegou a ser Vice-Presidente) e com passagens pela Ford ou a rede social Snapchat, chega à Farfetch para a garantir “o melhor desempenho financeiro possível nos próximos anos”.Confiança mantém-se em altaApesar da queda em bolsa de 40% em 24 horas e dos resultados do relatório (um momento que o Público caracteriza como “chave” na curta experiência da Farfetch em Wall Street), a confiança de José Neves, que ocupa a 20.ª posição na lista dos mais poderosos do Jornal de Negócios deste ano, mantém-se inabalável, acreditando que os objetivos delineados para 2023 vão ser cumpridos.No comunicado que deu conta dos resultados do segundo trimestre, o CEO e fundador salienta que a empresa “está a crescer, a tornar-se mais eficiente, e a cumprir as nossas prioridades estratégicas” e que em 2023 deverá ser mesmo “um grande ano para a Farfech, com um forte crescimento do volume de mercadorias [Gross Merchandise Value - GMV], com lucros ao nível do EBITDA ajustado e com cash-flow positivo”.Em resposta ao artigo do Público, a empresa adiantou também que não receia a dívida acumulada no balanço, pois além de não ter dívidas para pagar até 2027, espera ter disponíveis “mais de 800 milhões de dólares em caixa e equivalentes” até o final do ano. A par, de acordo com as suas projeções, espera “gerar 400 milhões em cash por ano até 2025”.Olhando para o futuro, a Farfetch projeta uma receita para o ano inteiro de aproximadamente 2,5 mil milhões de dólares, acima dos 2,3 mil milhões de 2022.

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The Next Big Idea apresenta...

 Masterclass com Diogo Mónica 

Diogo Mónica é fundador da Anchorage, o banco de criptoativos que vale agora mais de três mil milhões de dólares. Sempre quis fundar a sua própria empresa  — ser “o herói da sua própria história” — e soube esperar pelo momento certo. Hoje, investe a título pessoal em mais de 100 empreendedores. E é nessa condição que nos explica que “não há más ideias, apenas maus timings”, e nos guia, ao longo desta masterclass, sobre o que é isso de ser (e fazer vingar) uma startup.

  • O projeto “Únicos” propõe-se dar resposta à pergunta sobre o que torna uma empresa única e de que forma essa aprendizagem pode ajudar outras. Fizemo-lo num projeto em parceria com a Google e a Shilling.

  • A masterclass com Diogo Mónica está disponível aqui.

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Vi algures na Internet  💻

Digital Services Act da UE. A nova Lei dos Serviços Digitais - regras que responsabilizam as gigantes tecnológicas pelo conteúdo que aparece nas suas plataformas - da União Europeia já entrou oficialmente em vigor. Hugging Face. A "GitHub para o Machine Learning" arrecadou 235 milhões de dólares numa nova ronda de investimento. Google, Amazon, Nvidia, Intel, AMD, Qualcomm e IBM são alguns dos que injetaram dinheiro neste emoji que já vale 4.5 mil milhões de dólares. (Axios)Nvidia. Saiba como um chip de 40 mil dólares se tornou no hardware mais procurado do mundo. (Quartz)AI Summit. A Grã-Bretanha vai acolher uma cimeira mundial para debater o futuro da IA — no local onde Alan Turing decifrou o código Enigma da Alemanha nazi. (Reuters)Instacart. A empresa de entregas apresentou na sexta-feira o pedido para entrar em bolsa. É uma das maiores empresas tecnológicas a fazê-lo desde que a "porta" das OPA "fechou" em dezembro de 2021. Alibaba. A gigante chinesa anunciou dois novos modelos de IA - o Qwen-VL e o Qwen-VL-Chat -, que diz serem capazes de compreender imagens e efetuar conversas mais complexas. (Fortune)IA. Um relatório da Europol alerta que 90% do conteúdo da Internet em 2026 pode ser gerado por IA.Foxconn. Terry Gou, o fundador da maior fábrica de iPhones do mundo, anunciou que vai concorrer à presidência do Taiwan. (Nikkei Asia)Espaço. A Índia gastou menos dinheiro para aterrar uma nave espacial na Lua do que a Warner Bros. gastou a fazer o filme "Gravity". (Morning Brew)Threads. A muito aguardada versão web da rival da X (ex-Twitter) já está disponível desde a semana passada. (engadget)Crypto. A Mastercard terminou a parceria com a Binance - um duro golpe para a gigante das criptomoedas. (CNBC)Trabalho remoto. A última reviravolta na saga do regresso ao escritório da Meta não é boa para a imagem de Zuckerberg enquanto líder, segundo um especialista de Harvard. (CNBC)

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Ficha TécnicaPRODUÇÃO MADREMEDIANewsletter escrita por: Miguel Magalhães, Abilio dos ReisEdição:Rute Sousa Vasco, Miguel MagalhãesRevisão:Abílio dos ReisIlustrações:Rodrigo Mendes, Diogo Gomes

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