
26 de junho de 2023
Já ouviu falar da rede social de mensagens IRL [“In Real Life”]? É provável que não. No entanto, embora pouco conhecida na ribalta noticiosa, chegou a gozar do estatuto de unicórnio. Mais, chegou a angariar 170 milhões junto do Softbank, celebrou um acordo com a UFC e prometeu fazer comichão aos grupos do Facebook pelo seu conceito inovador. O grande problema? 95% dos seus 20 milhões utilizadores eram bots. É a história desta semana.Obrigado por nos lerem,Abílio dos Reis
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Long Stories Short

No telemóvel e Na Vida Real
O conceito “fake it until you make it” acontece no mundo dos negócios por uma razão e é prática corrente e aceitável (até certo ponto). Afinal, se um fundador de uma startup não acreditar nele próprio ou no seu produto, dificilmente vai conseguir convencer alguém a investir ou fazer a sua marca crescer. Porém, há casos e casos, e fingimentos e fingimentos. E o fingimento da rede social “IRL”, criada em 2018, foi um de todo o tamanho. Entenda-se, este todo o tamanho é para ser lido de forma literal, uma vez que pelo visto 95% dos seus 20 milhões de utilizadores eram bots (ou eram gerados por eles). Mas, por partes. Primeiro, as apresentações.Há dois anos, uma startup norte-americana chamada IRL (“In Real Life”) atingiu o célebre estatuto de unicórnio depois de receber uma ronda de financiamento de 170 milhões de dólares liderada pelo SoftBank (e mais 30 milhões de outros fundos, tendo angariado no total 200 milhões) — um feito digno de registo, se tivermos em conta que era uma aplicação/rede social de mensagens estilo Messenger com “apenas” 12 milhões de utilizadores mensais e que ainda não gerava receitas.Mas o que é mesmo esta IRL? Em 2021, ao The Verge, Abraham Shafi, CEO e cofundador, resumia a rede social de mensagens e o que se fazia na IRL: “Estamos a criar grupos e eventos no Facebook para a geração que não usa o Facebook". Na mesma entrevista, Shafi mostrava confiança porque “não havia outra” app no mercado como a IRL, desenhada e pensada para a maneira de comunicar e viver da “próxima geração”. Ou seja, a IRL autointitula-se de “rede social inovadora baseada em eventos”, uma que permitia num só espaço a “descoberta de grupos e eventos, calendários sociais e a troca de mensagens em grupo”.A nível de projeção, o caminho também já estava traçado para o curto e longo prazo.
A curto prazo: queria rivalizar diretamente com os grupos de Facebook, ambicionando ser a rede social de mensagens de grupo que reúne pessoas através de eventos e a partilha de experiências. Isto é, os utilizadores procuram pessoas com gostos semelhantes (concertos, livros, futeboladas, etc) e juntam-se às comunidades existentes através do telemóvel, mas ultimamente a intenção é que o convívio seja feito também fora do telemóvel — lá está, em “IRL”, ou em "Na Vida Real".
A longo prazo: queria tornar-se "uma super rede social de mensagens" e apresentar-se como a opção “WeChat para o resto do mundo". (Para quem não está familiarizado, a WeChat é a aplicação mais popular da China, que embora seja estilo WhatsApp, na verdade permite fazer tudo, desde pagar contas a chamar táxis — e é utilizada por 1,3 mil milhões de utilizadores todos os meses.)
Portanto, em outubro do ano passado, como salientou a Forbes, temos uma IRL avaliada em mais de mil milhões de dólares a caminhar para o Top 10 das aplicações de redes sociais e a dar eventos e plataforma a uma comunidade de cerca de 20 milhões de utilizadores ativos (dos quais 75% eram da Geração Z, o que fazia da IRL uma das redes sociais a crescer mais rápido entre os jovens). Pelo meio, há ainda que contar com a celebração de um acordo com a UFC, a principal promotora de artes marciais mistas do mundo, tornando-se na plataforma oficial para os fãs da modalidade conviverem online e offline.Tudo parecia bem e encarrilado para uma história de sucesso. Mas não. As preocupações dos bastidoresSe há algo que o CEO afirmou repetidamente durante o ano passado, era que a IRL tinha 20 milhões de utilizadores ativos mensais. Como noticiou a The Information em maio de 2022, Abraham Shafi fazia referência ao número tanto em entrevistas como em conversas com os investidores. No entanto, há um senão: Shafi utilizava uma definição de “utilizadores ativos” mais abrangente do que a maioria das redes sociais (como por exemplo o Facebook) para fazer com que a sua aplicação parecesse maior do que na verdade era. E a suspeição começou a ganhar outra dimensão quando uma empresa especializada em seguir este tipo de métricas revelou que, pelas suas contas, a IRL tinha na verdade entre 1 e 2 milhões de utilizadores ativos mensais — bem menos do que os 20 que Shafi alegava que a IRL tinha.O clima de suspeição iria escalar depois quando a SEC começou a investigar o caso e um antigo trabalhador alegou no início do ano que a IRL o tinha despedido depois de ter manifestado a sua preocupação com o facto de muitos utilizadores serem bots. Pressionado pelas polémicas e no olho do furacão, Shafi acabaria por deixar o cargo de CEO em abril (foi afastado por má conduta). Não que isso fizesse grande diferença. O mal já estava feito.“Fake it until you make it” é válido e OK, mas mentir aos investidores e dar dados falsos é fraude. É uma linha que não se pode cruzar e que por norma acarreta consequências. Porque pese embora a SEC já estivesse a investigar possíveis irregularidades, o conselho de administração da IRL anunciou na semana passada que levou a cabo a sua própria investigação e que deu razão às preocupações do ex-funcionário que foi alegadamente despedido por dizer que havia muito bot na plataforma.Segundo a investigação, cerca de 95% dos utilizadores da IRL eram "automatizados ou provenientes de bots". Portanto, "com base nessas descobertas, a maioria dos acionistas concluiu que as perspetivas futuras da empresa são insustentáveis”, pelo que a IRL vai deixar de existir e a empresa vai devolver o capital aos acionistas.Moral da história: No auge, há sensivelmente um ano, a IRL gozava do estatuto de unicórnio, contava com 100 trabalhadores e tinha assegurado 200 milhões de dólares (SoftBank e outros) para ser a WeChat do mundo. Agora, é apenas mais um caso que parece dar força aos analistas que consideram ser necessário reconsiderar a forma como o sucesso é visto no mundo tecnológico. Porque se a IRL é prova de alguma coisa, é que ser unicórnio não é sinónimo de investimento infalível ou de startup a manter debaixo de olho — e que se os números cheiram a esturro e são demasiado bons para serem verdadeiros, é porque há uma razão para isso.
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The Next Big Idea apresenta...

Masterclass com Vasco Pedro
Vasco Pedro começou a programar aos seis anos, é um apaixonado confesso pela consciência humana e pela inteligência, e cedo percebeu que não queria ser "mais um". É um "team player" e fundou três empresas até encontrar a equipa certa para lançar a Unbabel. Enquanto CEO, despediu 70% dos seus clientes quando alcançou a meta de 1 milhão em vendas por ano. Porquê? É isso (e muito mais) que explica nesta masterclass.
O projeto “Únicos” propõe-se dar resposta à pergunta sobre o que torna uma empresa única e de que forma essa aprendizagem pode ajudar outras. Fizemo-lo num projeto em parceria com a Google e a Shilling.
A masterclass com Vasco Pedro está disponível aqui.
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No nosso site 👀

xQc, a estrela da Twitch que vai ganhar como uma estrela da NBA O acordo assinado pelo canadiano Félix Lengyel, mais conhecido no mundo do livestreaming por xQc, parece saído diretamente de uma notícia da ESPN, uma vez que se equipara aos contratos profissionais assinados por grandes estrelas do desporto americano.A notícia completa aquiOutras notícias:
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Vi algures na Internet 💻
Spotify. A plataforma está a planear incluir um novo tipo de plano com uma subscrição mais cara, com o nome de "Supremium". (The Verge)Políticos e IA. A tecnologia está a ajudar a ambição dos políticos ao criar textos, imagens ou até escrever e-mails para angariação de fundos. (New York Times)Segurança. A Apple estará a planear a morte das palavras-passe. (Quartz)Guerra Aberta. A Recording Industry Association of America quer que o Discord feche um dos seus servidores — um que permite aos utilizadores criar deepfakes de músicos populares. (Quartz)Airbus. A empresa anunciou o maior negócio da história da aviação com uma encomenda de 500 jatos à transportadora indiana IndiGo. (CNBC)TikTok. V Pappas, atual diretor de operações da empresa, vai ser substituído por Zenia Mucha, que trabalhou durante 20 anos na Disney. (The Guardian)TikTok 2. A empresa confirmou que está a testar uma nova secção de compras na aplicação "Trendy Beat". A intenção passa por desafiar e concorrer com a Amazon e a Shein. (TechCrunch)Amazon. A gigante de retalho está a ser processada por inscrever os clientes no seu programa Prime sem o seu consentimento (e a dificultar o processo de cancelamento). (New York Times)Nintendo. Após a sua segunda apresentação em direto do ano, a empresa anunciou novos jogos, novas versões, remakes e muito mais. (The Verge)Streaming. A Warner Bros. Discovery, a dona da HBO Max, está a negociar um acordo com a Netflix para licenciar algumas séries da HBO. (Vox)Investimento. A Amazon criou um programa de 100 milhões de dólares - AWS Generative AI Innovation Center - para apoiar projetos de IA generativa. (TechCrunch)O maior, a trabalhar 24/7. O maior campus tecnológico da Europa vai custar 100 milhões de euros e vai ser construído em Vilnius, na Lituânia. (TechCrunch)“Secret Invasion”. A nova série da Marvel, que estreou a semana passada no Disney+, foi recebida com um coro de críticas devido ao genérico inicial ter sido gerado por inteligência artificial. No entanto, o estúdio responsável já veio esclarecer a situação e explicar que nenhum humano foi substituído ou perdeu o seu posto de trabalho. (The Verge)
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Ficha TécnicaPRODUÇÃO MADREMEDIANewsletter escrita por: Miguel Magalhães, Abilio dos ReisEdição:Rute Sousa Vasco, Miguel MagalhãesRevisão:Abílio dos ReisIlustrações:Rodrigo Mendes, Diogo Gomes








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