1 de fevereiro de 2021  

Podia ser só sobre a Bolsa, mas não teria movido tantas paixões. A história da GameStop é uma espécie de conto exemplar do capitalismo contemporâneo: tem ganância, tem jogo, tem manipulação e tem uma moral sobre como os desfavorecidos podem derrotar os que ditam as regras. Fosse tudo tão simples no mundo em geral e na bolsa em particular. Não é e, no meio deste turbilhão, a Robinhood, uma plataforma de investimento que nasceu com o propósito de democratizar o acesso à Bolsa viu-se mal amada por aqueles a quem supostamente democratizou o acesso aos mercados de capitais. Obrigada por nos acompanharem, Rute Sousa Vasco

Long Stories Short

 Um Robin dos Bosques mal-amado 

Uma fintech inovadora prometia “tirar aos ricos para dar aos pobres”. A pandemia deu-lhe a oportunidade de ser tornar a marca financeira de eleição para as gerações mais jovens de investidores. Um grupo no Reddit pode ter estragado os planos quando decidiu ir atrás dos grandes fundos de investimento de Wall Street. O direito a investir A Robinhood foi criada em 2013 por dois antigos “wallstreetianos”, Vladimir Tenev e Baiju Bhatt, que tinham como objetivo permitir um acesso mais democrático à negociação em mercados financeiros. Não era necessariamente tirar aos ricos para dar aos mais pobres, mas criar uma plataforma que retirasse ao comum investidor alguns obstáculos na transação de ativos, nomeadamente, as comissões elevadas que eram cobradas por muitas corretoras e os montantes de depósito iniciais que eram exigidos.

  • O que tinha a sua app de diferente? Permitia a negociação de acções de empresas e de ETFs (Exchange Traded Funds, ativos que permitem através de um único ativo financeiro investir num conjunto de acções em simultâneo) livre de comissões e com mecanismos de depósitos mais suaves, não só exigindo valores mais baixos, como sendo mais rápida nas transferências de fundos das contas bancárias para as contas de trading na sua plataforma.

  • Qual o seu modelo de negócio? Além de um forte investimento privado que permitiu subsidiar a filosofia da sua plataforma (onde, por coincidência, se incluem alguns dos grandes bancos de Wall Street), a Robinhood também tem as receitas habituais associadas a serviços financeiros: o juro dos empréstimos feitos pela sua plataforma e as receitas dos seus serviços de subscrição como o Robinhood Gold (acesso a depósitos instantâneos mais rápidos, negociação fora de horas e analytics de mercado). Contudo a sua principal fonte de rendimentos chama-se payment for order flow, em português, pagamento por reencaminhamento de ordem, que está associado ao facto de a plataforma não ter a estrutura necessária para processar uma grande quantidade de transações e de por isso reencaminhar muitos pedidos para outras plataformas, serviço pelo qual cobra um valor.

Um acaso chamado pandemia 2020 foi um ano maldito, mas a Robinhood não tem grande razão de queixa, tanto que até teve uma teoria financeira associada ao seu nome. As principais bolsas de valores (Nasdaq, S&P500, Dow Jones) atingiram valores recorde e para isso contribuiu a Teoria Robinhood,  que descreve o aumento significativo de investidores individuais amadores que se verificou durante a pandemia e principalmente em períodos de confinamento devido à inexistência de apostas em desportos ao aborrecimento. A Robinhood tornou-se a plataforma de eleição para estes investidores (americanos na maior parte) e em 2020 apresentou resultados animadores:

  • 13 milhões de utilizadores no final de 2020, mais três milhões que no ano anterior.

  • A idade média do utilizador da plataforma é 31 anos, um valor mais baixo que a concorrência, o que indica que a app é a predileta dos millennials e gerações mais novas.

  • No segundo trimestre de 2020, a Robinhood teve receitas de 150 milhões de euros, o dobro do primeiro trimestre. A sua valorização nesta altura ultrapassou os 10 mil milhões de euros no final de 2020.

  • Teve também uma sempre importante vitória moral ao levar muitas plataformas concorrentes a seguir as pisadas do seu modelo e baixar as comissões que cobravam.

A GameStop e um desastre de marketing

 Muito se escreveu nos últimos dias sobre o caso da cadeia de lojas de videojogos americana em declínio (saiba mais neste artigo do SAPO24). Desde o verão de 2020, o valor das acções da GameStop passou de 4 dólares para 493 dólares a determinada altura na semana passada (um crescimento de 12.500%). Tudo poderia fazer algum sentido se a empresa tivesse feito uma viragem épica no seu negócio. Mas não foi isso que aconteceu. Tudo não passou de uma guerra declarada de um grupo de investidores no Reddit, WallStreetBets, aos grandes grupos financeiros de Wall Street, onde a Robinhood era o arco e a GameStop a flecha. Resumidamente, uma série de movimentos de mercado levou a que o preço da acção disparasse e que se tornasse altamente volátil com milhões de utilizadores a comprarem e a venderem em simultâneo (tanto que as acções da GameStop foram as mais transacionadas na semana passada). Isto levou a que a Robinhood e outras plataformas decidissem bloquear ou limitar as transações da GameStop - e de outras acções que estavam a apresentar padrões semelhantes – classificando-as com um risco de mercado muito elevado. Duas narrativas foram criadas:

  • A plataforma anti-sistema protegeu o status-quo: devido aos seus investidores e a pressões de Wall Street, a Robinhood decidiu impedir os seus utilizadores de negociar determinadas acções e dessa forma proteger os interesses de grandes grupos financeiros como a Melvin Capital, que estavam a perder muito dinheiro com a evolução positiva do preço. Como resultado disso diversos utilizadores, que durante meses elogiaram a plataforma, colocaram processos em tribunal contra a mesma por os ter lesado.

  • Teve de ser assim: qualquer serviço financeiro, como acontece com os bancos, tem de ter, por lei, um certo nível de liquidez para garantir que, se grande parte dos seus utilizadores/clientes quisesse levantar o dinheiro que tinha disponível, o poderia fazer. Com o volume registado de transações na GameStop e noutras acções, a Robinhood já não conseguia garantir isso e por isso decidiu limitar as operações feitas nesses ativos. Não será uma surpresa as notícias de mais rondas de investimento levantadas pela empresa nos últimos dias. 

Em suma: o caso levou a que se esteja a repensar cada vez mais o futuro dos mercados financeiros (já não há ciência nenhuma?) e qual o papel que plataformas como a Robinhood e grupos de investimento vão desempenhar neles, no controlo de potenciais manipulações. As respostas não vão ser encontradas nos próximos dias, mas se a plataforma de trading quiser recuperar a imagem que tinha construído vai ter de fazer um grande esforço.

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The Next Big Idea apresenta...

 Pensar o futuro da tecnologia e não só 

A terceira edição do Building The Future, evento organizado pela Microsoft e pela iMatch, decorreu entre os dias 26 e 28 de janeiro, num formato 100% online que juntou cerca de 20 mil pessoas. A tecnologia foi o tema em foco, não fosse a Microsoft uma das empresas líderes no setor, mas também houve espaço para falar das tendências que se vão observar em áreas como a educação, o trabalho remoto, a sustentabilidade, a ética e a diversidade. Houve ainda painéis dedicados a discutir os principais efeitos da pandemia e as soluções que têm de ser desenvolvidas para que possam ser ultrapassados. À conversa com o The Next Big Idea, no último episódio, esteve Abel Aguiar, Diretor Executivo da Microsoft Portugal, que destacou os principais acontecimentos do evento e ainda um efeito subvalorizado da pandemia: o caminho casa-trabalho-casa.

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Vi algures na Internet

 "Heinz. The only ketchup" 

Foi este o slogan que a personagem Peggy Olson usou para convencer o cliente Heinz num pitch publicitário da série Mad Men. O objetivo era mostrar que, por mais marcas que existissem deste delicioso molho de tomate, havia uma que claramente se destacava pela sua autenticidade. A série retrata os anos 60, mas há técnicas de marketing que nunca saem de moda.Em pleno 2021, a Heinz do Canadá entrou ao ataque com uma campanha semelhante. Pediu a várias pessoas para desenharem ketchup e a maioria desenhou um frasco da marca, com tentativas melhor ou pior conseguidas do logótipo, conforme o talento dos "artistas". Veja o vídeo neste artigo do Marketing Dive.No fim de contas, esta campanha resultou numa série de placares com os desenhos das pessoas que participaram na experiência e a frase "Nós pedimos às pessoas para desenharem ketchup. Elas desenharam Heinz". É caso para dizer que a publicidade foi feita pelo próprio consumidor.

 A Internet não perdoa (e ainda bem) 

Isto já não é novidade e às vezes há imagens que "estão mesmo ali" e a vontade de criar conteúdo em torno disso torna-se irresistível! Desta vez o alvo foi Bernie Sanders, senador americano e um dos candidatos democratas da última corrida à presidência dos EUA. O político esteve presente na tomada de posse de Joe Biden e foi captado numa pose caricata, de máscara, luvas, pernas e braços cruzados e cara de quem tem frio e vontade de ir para casa.A partir desse dia, choveram memes e um herói anónimo da internet criou um site onde era possível colocar Bernie Sanders em qualquer localização do mundo. Depois seguiu-se o merchandise feito única e exclusivamente a partir desta imagem viral. No New York Times, lê-se que foram feitas t-shirts, camisolas, bonecos de crochet e outros objetos com esta figura. Contas feitas, arrecadaram-se quase 2 milhões de dólares (cerca de 1,7 milhões de euros) para instituições de caridade em Vermont.

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Projetos que ficaram debaixo de olho esta semana 🤩

  • O produto que toda a gente queria ter: uma máscara que deteta infetados com coronavírus. É nesse sentido que está a trabalhar um investigador da Universidade da Califórnia, San Diego, com uma bolsa de 1,3 milhões de dólares (1 milhão de euros) do National Institute of Health. Tal como explica o The Fast Company, o mecanismo é feito do mesmo material das paletes de comprimidos e é aplicável em qualquer máscara. Esta ferramenta tem um tubo que coleta gotículas da nossa cara. Depois de um dia de uso de máscara, este tubo é quebrado e mistura-se com uma solução que deteta a COVID-19.

  • Gelado que não engorda? Sim, leu bem. A startup sueca Lub Foods, dona da marca de açúcar Nick's, conseguiu uma licença para um novo tipo de gelado que contém uma gordura de óleo vegetal que o corpo não consegue absorver. Este tipo de gordura consegue cortar até 92% das calorias em, por exemplo, gelados ou fritos, segundo este artigo da Sifted.

  • Todos os bips na Beeper. Se é daquelas pessoas que dão em loucas com os vários "bips" de mensagens que vão recebendo ao longo do dia, a app Beeper é para si. De acordo com o The Verge, num só interface, pode agregar todos os seus chats, com um máximo até 15 plataformas diferentes, tais como o WhatsApp, o Facebook Messenger, o Instagram, o Twitter, o Signal, o Telegram ou o Slack. Assim, de cada vez que ouvir um "bip" já sabe exatamente onde tem de clicar.

  • Revolut revolution: a plataforma financeira vai avançar com o teletrabalho permanente em regime flexível. Os escritórios da Revolut vão ser transformados nos chamados RevLabs, com 70% do espaço dedicado ao trabalho coletivo. Assim, os mais de 2 mil trabalhadores podem escolher se querem trabalhar a partir de casa ou deslocar-se ao escritório, e gerir as suas rotinas. 

É só mais 1 minuto ⌛

  • Shopify: neste artigo da Privy, encontre 100 dicas para montar e crescer a sua loja online ideal na plataforma. Não existem receitas infalíveis, mas pode ser um começo.

  • Um produto promissor: na semana passada, a Xiaomi apresentou um novo equipamento que poderá carregar os dispositivos eletrónicos através de energia lançada pelo ar. Confuso? Descubra mais neste artigo do The Verge.

  • Uma descoberta assustadora: Lembra-se daquela vez em que disse a um amigo que queria comer sushi e no momento a seguir lhe apareceram promoções de restaurantes japoneses no telemóvel? Se aceder a este link vai ser levado a uma página que mostra uma lista que funciona como uma base de dados com todas as informações que a Google sabe sobre si.

Dois dedos de conversa

  • Esta newsletter é produzida pela MadreMedia e reúne histórias do admirável mundo da inovação e das empresas, por isso andamos sempre à procura de novas ideias e de novos projetos que valha a pena dar o devido destaque. Às segundas-feiras na sua caixa de email.

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