16 de janeiro de 2023

Pode um dos maiores e mais importantes bancos do mundo ter sido realmente enganado por uma jovem demasiado ambiciosa para o seu próprio bem? As notícias que nos chegam do outro lado do Atlântico remetem-nos para essa possibilidade. Mas será que é mesmo assim? É o que vamos tentar perceber na newsletter de hoje, ao analisarmos um caso de 175 milhões de dólares que está a opor o J.P Morgan Chase e Charlie Javice, uma Forbes “30 under 30” das finanças e fundadora da Frank, plataforma que em tempos almejou ser a "Amazon para o ensino superior".Obrigado por nos lerem,Miguel Magalhães

Long Stories Short 

 A startup que enganou a JP Morgan 

Quando pensamos na JP Morgan Chase, há várias coisas que nos veem rapidamente à cabeça: 

  • “O maior banco dos EUA”

  • “Tem o maior banco de investimento do mundo”

  • “Gere quase 4 biliões (ou trillions) de dólares em ativos”

  • “Tem mais experiência nos mercados financeiros do que todos, podendo-se traçar a sua origem no final do século XVIII”

São informações que estão por detrás de toda a reputação do conglomerado financeiro americano e que o tornam numa peça basilar de todo o sistema financeiro mundial. Dito isto, dada a sua importância, é díficil imaginar alguém a conseguir enganar esta organização em qualquer tipo de negócio, seja uma empresa, investidor ou utilizador a título individual.Mas foi o que “alegadamente” aconteceu com Charlie Javice e a sua startup, a Frank. Criada em 2016, a empresa posicionou-se como uma solução para os milhões de estudantes americanos que, todos os anos, passam por uma complexa candidatura a empréstimos junto de bancos e outras instituições financeiras para conseguirem arranjar maneira de pagar a universidade — e é aqui que entra o software da Frank, que simplificava todo esse processo. Ao mesmo tempo, a empresa procurava ser “uma Amazon para o Ensino Superior”, atacando um mercado avaliado nos EUA em 1.5 biliões (trillion) de dólares (2023).Acontece que o pitch foi suficiente para Javice ir atraindo o interesse de vários VCs como Mark Rowan (da Apollo Global Management) e para em setembro de 2021 a JP Morgan Chase decidir adquirir a empresa por 175 milhões de dólares. Com a compra, o objetivo do banco era colocar Charlie Javice e o restante staff da Frank à frente da sua divisão dedicada a estudantes para que pudessem vender a sua plataforma juntamente com outros serviços da JP Morgan. No papel, parecia fazer tudo sentido:

  • Javice tinha-se licenciado na Wharton, uma das universidades de maior prestígio nos EUA e, em 2019, tinha estado na lista da Forbes “30 Under 30”, como uma das jovens empresárias mais promissoras.

  • Segundo a CEO, a Frank já tinha registado os processos de mais de 5 milhões de estudantes presentes em mais de 6 mil universidades.

Mas afinal não era bem assim…

2022 terminou com a JP Morgan Chase a afastar Charlie Javice do seu cargo e a colocá-la em tribunal por fraude. No processo, o banco alega que a fundadora da Frank adulterou prepositamente a lista de clientes que a sua startup tinha, de forma a inflacionar o preço que a JP Morgan tinha de pagar para a adquirir.Afirmações sérias que, para os pecados de Javice, parecem ter várias provas a sustentá-las.As suspeitas do banco começaram quando começou a testar campanhas de marketing dos seus serviços com a “audiência” que tinha adquirido junto da Frank: 4.265 milhões de estudantes. Um e-mail de teste enviado a 400 mil utilizadores conseguiu ser entregue a apenas um quarto da amostra, e desse grupo apenas 1% acabou por o ler. Os alarmes soaram e iniciou-se uma investigação mais séria. E eis uma breve sequência desses “alegados” acontecimentos: 

  • O comportamento errático de Charlie Javice começou no processo de diligência, quando a JP Morgan pediu que entregasse a lista de utilizadores da Frank. A fundadora inicialmente citou a proteção da privacidade dos mesmos como motivo para não o fazer.

  • A JP Morgan acredita que na altura em que comprou a startup esta não teria mais do que 300 mil utilizadores ativos, menos de 10% do que proclamava nas sucessivas apresentações que fez ao banco e a outros investidores. E que em vez de dizer a verdade em qualquer etapa, Javice escolheu consecutivamente mentir para benefício próprio.

  • Charlie Javice utilizou vários esquemas para apresentar uma base de utilizadores que não tinha: 1) pediu a um engenheiro de topo da Frank para fabricar a lista; 2) pagou 18 mil euros a um professor universitário em Nova Iorque para criar uma lista de 4 milhões de utilizadores com base no número de utilizadores que já tinha com nome, morada, data de nascimento e outros dados; 3) pediu ao seu Chief of Growth, Oliver Amar, para comprar uma base dados a um fornecedor “third-party”, por 105 mil euros. A lista recebida pela JP Morgan foi uma mistura das duas últimas.

  • Antes de tudo isto, a Frank já tinha sido alvo de escrutínio por parte do Congresso Americano e da FTC (autoridade americana da concorrência), pelo funcionamento deficiente da sua plataforma e por um modelo de negócio que parecia estar mais assente na venda de dados de utilizadores a anunciantes.

É caso para dizer frank(amente)Como resposta à acusação da JP Morgan, Charlie Javice decidiu passar ao contra-ataque e colocar também o banco com um processo em tribunal. De acordo com a empresária, tudo isto não passa de um esquema para justificar e esconder uma terminação do seu contrato com má-fé.

  • Por um lado, Javice acredita que a instituição financeira decidiu desfazer-se da Frank quando percebeu que não ia conseguir contornar algumas leis de privacidade para tirar proveito da sua base de utilizadores.

  • Por outro, é também uma forma da JP Morgan se escapar à compensação milionária que lhe tinha sido prometida: a juntar aos 10 milhões de dólares que recebeu com a aquisição, Javice estava próxima de receber um bónus de 20 milhões de dólares.

Coincidência? Quando integrou a lista da Forbes fizeram duas perguntas a Javice: "Qual o maior desafio da Frank?” e “Qual o pior conselho que já tinha recebido?”. As respostas dadas foram “escalar o negócio” e “ser paciente”, respetivamente. Faz sentido.

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The Next Big Idea apresenta...

Enquanto preparamos as temporadas futuras do The Next Big Idea poderá continuar a acompanhar os nossos conteúdos no TikTok e no YouTube.Nas próximas semanas, vamos começar a lançar as masterclasses e segmentos especiais com os líderes das principais startups portuguesas e essas serão as plataformas de eleição para a acompanhar guias e dicas práticas de como construir um negócio, liderar uma equipa ou levantar capital junto dos principais fundos de investimento.

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No nosso site  👀

“Há 15 anos a Internet era um escape do mundo real. Agora o mundo real é um escape da Internet”. O futurista Gerd Leonhard trouxe a frase do professor e colunista Noah Smith a uma sala onde se discutia como construir “um melhor turismo”.Estas startups querem dar um BOOST ao turismo do futuroEm Matosinhos, durante o BOOST – Building Better Tourism, discutiu-se o futuro do turismo. E de aplicações para ligar viajantes a profissionais de saúde, de software para ajudar os negócios da hotelaria e restauração a rentabilizar e maximizar custos, estas startups mostraram o caminho para o fazer e do que aí vem.Rows integra modelo de AI do ChatGPT na sua spreadsheetA startup portuguesa, que criou uma alternativa ao Excel e ao Google Sheets, anunciou que a sua plataforma vai passar a integrar um dos modelos de Inteligência Artificial mais avançados do mundo: a OpenAI, que está por detrás do famoso ChatGPT.

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Vi algures na Internet  💻

Web3. Para quem quiser acompanhar a atualidade e aprender um pouco mais sobre a economia descentralizada, poderá acompanhar as conversas que vou ter na Denites TV nas próximas semanas (YouTube | Spotify).Computação. Da transformação da Inteligência Artificial às máquinas que ajudam as máquinas, estas foram as melhores descobertas de 2022 nas ciências da computação. (QuantaMagazine)Goldman Sachs. O banco de investimento tem planos para cortar até 3.200 postos de trabalho. (New York TimesMicrosoft & ChatGPT. A gigante tecnológica está em conversações para investir 10 mil milhões de dólares na OpenAI. (Semafor)Shark Tanks. Uma reportagem sobre os bastidores dos negócios alcançados no famoso programa dos tubarões revela que estes nem sempre acontecem como passa na televisão. (Forbes)Patentes. Pela primeira vez em quase três décadas, a IBM não lidera o ranking das empresas que registaram mais patentes. A posição #1 pertence à Samsung. (Barrons)Sam Bankman-Fried. SBF alegou que não roubou dinheiro aos utilizadores e culpou o colapso da FTX com o crash do mercado das criptomoedas. (ReutersSpare. A biografia do Príncipe Harry vendeu 1.4 milhões de cópias num só dia — batendo vários recordes. (Variety)Recessão. Os quatro maiores bancos americanos, apesar de as contas do último trimestre ainda não o revelarem, estão com receio do que aí vem. (The Wall Street Journal)Apple. O CEO Tim Cook vai ter o seu salário reduzido em 40% este ano — ajuste foi feito a pedido do próprio. (CNNEspaço. O Telescópio Espacial James Webb acaba de identificar o seu primeiro exoplaneta. (Popular Science)Investimento (1). Na Europa, em 2022, as rondas Serie A foram semelhantes às verificadas no ano anterior: €12.2bn vs €12.9bn em 2021. (Sifted)Investimento (2). No entanto, 2022 assistiu a um declínio histórico (35%) no financiamento VC, de acordo com a Crunchbase.Dior. Bernard Arnault, a pessoa mais rica do mundo, nomeou a sua filha mais velha, Delphine, para gerir a Christian Dior, a segunda maior marca do seu império avaliado em 382 mil milhões de euros. (The Guardian)

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Ficha TécnicaPRODUÇÃO MADREMEDIANewsletter escrita por: Miguel Magalhães, Abílio dos ReisEdição:Rute Sousa Vasco, Miguel MagalhãesRevisão:Abílio dos ReisIlustrações:Rodrigo Mendes, Diogo Gomes

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